Verrísimo explica.

17.01.2008 | Loch

Texto em resposta aos falsos textos atribuidos a ele.

———————————————————————————————-

Presque
(texto de LFV publicado no jornal ZH em 24/03/2005)

A internet é uma maravilha, a internet é um horror. Não sei como
a Humanidade pôde viver tanto tempo sem o e-mail e o Google, não sei
o que será da nossa privacidade e da nossa sanidade quando só soubermos conviver nesse cyberuniverso assustador. O mais admirável
da internet é que tudo posto nos seus circuitos acaba tendo o mesmo valor, seja receita de bolo ou ensaio filosófico, já que o meio e o acesso
ao meio são absolutamente iguais. O mais terrível é que tudo acaba
tendo a mesma neutralidade moral, seja pregação inspiradora ou
pregação racista — ou receita de bomba — já que a linguagem técnica
é a mesma e a promiscuidade das mensagens é incontrolável.
Não temos nem escolha entre o admirável e o terrível, pois acima de
qualquer outra coisa a internet, hoje, é inevitável.

Uma das incomodações menores da internet, além das repetidas
manifestações que recebo de uma inquietante preocupação, em algum
lugar, com o tamanho do meu pênis, é o texto com autor falso, ou o
falso texto de autor verdadeiro. Ainda não entendi o recado ou a
estranha lógica de quem inventa um texto e põe na internet com o
nome de outro, mas o fato é que os ares estão cheios de atribuições
mentirosas ou duvidosas.
Já li vários textos com assinaturas improváveis na internet, inclusive vários meus que nunca assinei, ou assinaria.
Um, que circulou bastante, comparava duplas sertanejas com drogas
e aconselhava o leitor a evitar qualquer cantor saído de Goiânia,
o que me valeu muita correspondência indignada. Outro era sobre uma
dor de barriga desastrosa, que muitos acharam nojento ou, pior,
sensacional. O incômodo, além dos eventuais xingamentos, é só a
obrigação de saber o que responder em casos como o da senhora
que declarou que odiava tudo que eu escrevia até ler,
na internet, um texto meu que adorara, e que, claro, não era meu.
Agradeci, modestamente. Admiradora nova a gente não rejeita,
mesmo quando não merece.

O texto que encantara a senhora se chamava “Quase” e é, mesmo,
muito bom.
Tenho sido elogiadíssimo pelo “Quase”. Pessoas me agradecem
por ter escrito o “Quase”. Algumas dizem que o “Quase” mudou suas
vidas.
Uma turma de formandos me convidou para ser seu patrono e na última página do caro catálogo da formatura, como uma homenagem a mim, lá estava, inteiro, o “Quase”.
Não tive coragem de desiludir a garotada. Na internet, tudo se torna verdade até prova em contrário e como na internet a prova em
contrário é impossível, fazer o quê?

Eu gostaria de encontrar o verdadeiro autor do “Quase”
para agradecer a glória emprestada e para lhe dar um recado.
No Salão do Livro de Paris, na semana passada, ganhei da autora
um volume de textos e versos brasileiros muito bem traduzidos
para o francês, com uma surpresa: eu estava entre Clarice Lispector,
Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e outros escolhidos,
adivinha com que texto. Em francês ficou Presque.


Veja Mais!
Cadê as meias manhêêêê!
Quadrinhos by Loch [18]
Quadrinhos by Loch [62]
Quadrinhos by Loch [117]
Quadrinhos by Loch [115]
Quadrinhos by Loch [127]
Quadrinhos by Loch[12]
Quadrinhos by Loch [132]

Deixe um comentário!