Saudade…
09.11.2007 | Loch
Pra quem estava com saudades de cultura no blog.
Elizabethanos - Luís Fernando Veríssimo
SHAKESPEARE - Quem sois, que me acordais de um sono tão longo que nas pálpebras pesa a remela?
ELIZABETH - Sou a rainha.
SHAKESPEARE - Elizabeth?
ELIZABETH - Ela.
SHAKESPEARE - Então eu não morri, e quatrocentos anos de túmulo foram o sono de um segundo, e o declínio da Inglaterra o devaneio cruel de um cérebro vagabundo?
ELIZABETH - Não, vos suplico, não erreis na dedução. Sou Elizabeth, sou rainha, mas não sou aquela não. A Inglaterra está mudada, o mundo uma anarquia. Mas, quatrocentos anos depois, ainda vive a monarquia.
SHAKESPEARE - Agora vejo com clareza, sois muito diferente. Uma rainha assim, sei lá, com cara de tia da gente.
ELIZABETH - Mas o reino é o mesmo, a mesma ilha coroada. A mesma raça de reis, e a coroa o mesmo fardo. Só nos falta…
SHAKESPEARE - O quê?
ELIZABETH - Um bardo.
SHAKESPEARE - Entendo! Não quereis meus ossos nem minha carne, não é a ressurreição que minha acena. Quereis meu espírito… e minha pena.
ELIZABETH - Sim, cantai, bardo, como fizestes um dia, as glórias e os feitos, o esplendor e o tutano deste novo tempo - elizabethano.
SHAKESPEARE - A tarefa, confesso, me atrai, embora esteja enferrujado. Ah, rechear outra vez mil folhas com versos de lado a lado! Plenos de sangue e luxúria, de vida, de som e de fúria. Contai-me, rainha, tudo, sem esquecer um pajem: quem fez o que com quem, com que calhordice ou coragem.
ELIZABETH - Bem. Meu tio Eduardo, um romântico…
SHAKESPEARE - Já preparo o cântico… “Matou dezessete sobrinhos e morreu com a mente insana.”
ELIZABETH - Não. Casou com uma americana.
SHAKESPEARE - Esqueci esse. Quem mais? Que heróis? Que vilões? Quem espantou o mundo com sua vida e espantará o inferno com sua morte?
ELIZABETH - Tem Felipe, meu consorte.
SHAKESPEARE - Ah, pressinto um personagem… Conspira, transpira, se esgueira? Queima com a chama terrível do eterno enjeitado?
ELIZABETH - Não, é até meio apagado.
SHAKESPEARE - E os príncipes? Estes inspiram a nação. Qual deles é o guerreiro? Qual o alegre fanfarrão? Algum filósofo? Algum esteta? Pelo menos um mau poeta? Qual o carneiro, qual o lobo?
ELIZABETH - Nem uma coisa nem outra…
SHAKESPEARE - Nessa corte só tem bobo!
ELIZABETH - Esperai. Há um que o povo inspira, e não há quem não agite, dos condados à rua Fleet. Andrew é o seu nome, e tem histórias de sobra.
SHAKESPEARE - E o destino trágico dos príncipes está em toda a minha obra. Ser aquele que o reino ama, e pelo reino quebra a cara. Esse Andrew…
ELIZABETH - Namorou uma pornostar e vai casar com uma Sarah.
SHAKESPEARE - Sim. Humm. Tudo bem. Não repareis, soberana, mas vou voltar a dormir, seja na tumba seja na cama. Dormir, talvez sonhar, tanto faz - desde que eu volte à paz. Tente Coward, Wilde, Shaw, os três juntos ou um só. Pois os tempos são elizabethanos mas não são nada shakespearianos.
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Que preguiça de escolher um título
Cacildes !
Charles Chaplin
Belo Soneto…
Para os saudadentos
Saudade.
“Essas curtas idas e vindas”
Voltando ao Veríssimo.
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